Análise: God of War (PS4) – Coração de gelo

Em God of War, aclamada sequência da série, a ira dos deuses agora enfrenta dois obstáculos, com um Kratos mudado, mas ainda impressionante.

God of War é um jogo eletrônico de ação e aventura com elementos de RPG. Desenvolvido pela Santa Monica Studio e publicado pela Sony Interactive Entertainment (SIE) em 2018, o game foi premiado com diversos títulos, entre eles o The Game Awards 2018 na categoria “Jogo do Ano” e o BAFTA Game Awards nas categorias “Melhor Jogo”, “Melhor Áudio”, “Melhor Narrativa” e “Desempenho”. Exclusivo para Playstation 4, trata-se do oitavo jogo da saga, sendo uma sequência dos eventos ocorridos em God of war III (2010).

Esta é uma análise livre de spoilers.

God of War PS4 CBG

Como pai e filho: uma jornada bastante familiar

Moderadamente inspirado em narrativas de obras como The Last of Us (2013), Bioshock Infinite e Telltale The Walking Dead: Season 1, o novo título da saga God of War situa-se, na maior parte do tempo, na antiga Noruega no reino de Midgard (Mundo dos homens), sendo ambientado no contexto da mitologia nórdica. 

O enredo traz uma reimaginação da saga, com um Kratos enfraquecido pelo destino e adaptando-se à sua nova vida afastado do passado longínquo e sangrento. Pela primeira vez na série, há dois protagonistas: o antigo deus da guerra espartano e seu jovem filho, Atreus.

Após a morte da segunda esposa de Kratos e mãe de Atreus, ambos viajam para cumprir sua promessa de espalhar as cinzas no pico mais alto dos nove reinos. Kratos mantém seu passado conturbado em segredo para Atreus, que não tem consciência de sua natureza divina. Ao longo da jornada, eles encontrarão diversas criaturas e deuses do mundo nórdico.

Em uma história tocante, acompanhamos o esforço do fantasma de Esparta para transformar seu filho em um deus guerreiro, e do garoto que, em contrapartida, lutará para restaurar a humanidade de seu pai. 

Estamos falando de um processo narrativo mais comprido que o esperado, cuidadosamente lapidado e reluzente como diamante. Portanto, a transformação de Kratos pode afetar o julgamento de alguns fãs mais resistentes às mudanças, que definitivamente irão detestar acompanhar um herói forte, porém calmo e cauteloso, totalmente alheio às suas enfurecidas e sanguinolentas versões passadas. 

Reconhecemos que um ritmo de jogo lento não é para todos. Mas essas mudanças, trazendo agora uma perspectiva mais cinematográfica e emocional à franquia, foram perfeitamente construídas e serão bem-vindas por muitos. Mudanças essas que não se limitam somente ao enredo.

Citando Wagner: uma pérola da guerra

God of War traz um estilo de jogo totalmente diferente dos demais títulos da saga, com um gameplay majoritariamente pesado e lento, que precisa adaptar-se a diferentes estratégias conforme vamos evoluindo nossas armas, runas e personagens em um sistema de níveis, que se complementa com mecânicas de troca e venda, crafting e coleta de itens pelo mapa. 

O mapa do jogo, que é semiaberto, divide-se em diferentes mundos com atividades principais e secundárias que nos renderão recompensas tão generosas quanto seus desafios. E a dificuldade pode ser amarga se você não estiver preparado o suficiente. Com uma ambientação magistral, iremos vagar por terra, mar, neve e até mesmo lava. 

Gráficos impecáveis, trilha sonora original e inesquecível, combates cinematográficos, jogos de câmera perfeitos, combate dinâmico e muita, mas muita violência compõem a paleta técnica do game. 

God of War apostou alto ao realizar transformações tão bruscas, tanto em história quanto em gameplay, e tais mudanças certamente não irão agradar a todos. O ritmo frenético e carnívoro dos títulos anteriores foi praticamente erradicado, embora refletido em pequenas alterações que podem ocorrer quando desbloqueamos elementos que não devem ser mencionados aqui. Ainda assim, boa parte de nossa experiência se resume a algo inteiramente novo: combates não tão frenéticos, porém estratégicos, que nos exigirão cautela e variedade. 

Usaremos vários recursos ao nosso redor, humanos ou não. No caso, Atreus. O segundo protagonista do jogo servirá como um auxiliar em nossas batalhas, com uma inteligência artificial (I.A) muito bem trabalhada, que irá nos prover todo tipo de suporte, flechando inimigos, indicando saídas, encontrando itens e muito mais. 

Além de uma campanha que irá atravessar os mais variados cenários e desafios, também contamos com diversas atividades secundárias, colecionáveis e segredos. Aqui, temos um mundo novo. E ele é maior do que você imagina. 

Veredito: hereditário

Com uma trama quase perfeita, gameplay dinâmico e qualidades técnicas incontáveis, God of War quase não dá chance aos poucos bugs que ocasionalmente teimam em nos desaventurar. 

Vemos aqui um roteiro muito mais pessoal do que deixa transparecer, com momentos cômicos, emocionantes e adoravelmente tensos. Largos mapas, atividades que fogem à repetição e gameplay que exige do jogador tanto força bruta quanto intelecto. Trazendo mudanças radicais, nem todos irão recebê-lo de braços abertos. Mas sua composição forma a experiência single-player definitiva, de grandeza inquestionável. 

God of War é uma jornada de pai para filho, que espera dividir sua glória com futuras continuações. E Kratos, embora continue um monstro, também continua sendo nosso.

Análise feita com cópia digital cedida pela Sony Interactive Entertainment

Revisão: Felipe Rodrigues

Arthur Döhler

Graduando em letras português/Inglês. Tradutor (EN - PT), revisor, escritor, redator, pesquisador e professor de inglês como segunda língua, possui formação complementar em Harvard. Autor do livro "Manual do Ilustrador de Sonhos". Descobriu o inglês através dos games. Através do inglês, a leitura. Pela leitura, formou a escrita, e a escrita o trouxe de volta aos games.

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