Análise: The Town of Light (PC) – Todos os monstros são humanos

admin
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Produzido em 2016 pela desenvolvedora italiana LKA, The Town of Light é um jogo indie de terror psicológico baseado em fatos reais. Ele teve seu lançamento quase exclusivamente para PC, porém em 2017 recebeu uma atualização para Xbox One e PS4.

Honestamente, o jogo não fez tanto sucesso com relação a outros clássicos do gênero. Ao contrário, ele passou despercebido pelo seu “explorar” sem ter muita atenção. O maior problema, sem dúvida, foi a falta de marketing envolvendo o game. Devido ao baixo orçamento, ele não conseguiu um público-alvo grande o suficiente para demonstrar todo seu potencial.

Para ser sincera, tive conhecimento da sua existência recentemente, enquanto pesquisava títulos na Steam. Após ser completamente cativada pela sinopse e narrativa, decidi comprar e jogar The Town of Light. Desse modo, resolvi trazê-lo para análise. Um presente para os seguidores da CBG que, assim como eu, amam o gênero. O motivo é simples: o game tem um enorme potencial e deve ser reconhecido.

Narrativa assustadora e veracidade dos fatos

The Town of Light nos mostra a história da jovem Renée, cujo sobrenome não nos é apresentado inicialmente. Ela será a nossa protagonista e única personagem jogável durante todo o game. Renée, durante sua adolescência, foi internada no hospital psiquiátrico Volterra, situado na região da Toscana, Itália. 

O jogo se passa no ano de 2016.  Você deverá ajudar a personagem a encontrar as páginas do diário em que ela escreveu durante o tempo em que permaneceu internada. Além de encontrar sua antiga boneca Charlotte, que está dentro das paredes do sanatório destruído pelo tempo. 

As memórias da personagem são fragmentadas. Por essa razão, à medida que o jogador for avançando nos cenários, Renée lembrará de novos acontecimentos e maus tratos que sofreu durante o tempo que passou no sanatório. O jogo é dividido em capítulos e tem uma campanha de 5-6 horas. Além disso, ele possui escolhas que influenciam no cenário.

Primeira foto, corredores do hospital real. Abaixo, podemos observar a recriação do cenário no game  

Um detalhe interessante do game é a veracidade dos fatos. Por exemplo: o hospital psiquiátrico de Volterra realmente existiu. O Volterra Lunatic Asylum foi fundado em 1888 no alto de uma colina, como era de costume na época em que os manicômios eram construídos. No entanto, sabe-se que nem todos os internados ali eram loucos. Muitos pacientes eram de classes inferiores, comumente marginalizados.

O hospital Volterra era conhecido por seus tratamentos desumanos com os pacientes. Consequentemente, tratamentos de choque e lobotomias desnecessárias eram realizadas no local, que também era conhecido como o “lugar  sem retorno”, pois muitos pacientes não recebiam alta. Mesmo assim, o hospital permaneceu aberto até 1978, quando foi fechado após a aprovação da lei 180 que determinou o fechamento de todos os hospitais psiquiátricos existentes na Itália. No entanto, ele foi reaberto em 2018 e será utilizado novamente para fins psiquiátricos. 

Corredores reais do Volterra Lunatic Asylum

Jogabilidade

The Town of Light possui uma jogabilidade extremamente simples. Basicamente, você terá que explorar o cenário, interagindo com objetos e documentos. Talvez seja por isso que muitos jogadores não apreciaram o título, diferentemente de jogos como Outlast (2013), por exemplo, que abordam um tema semelhante. O game não possui um vilão, nem mesmo tem momentos perseguição. Você não pode correr, porque não tem motivo algum. O terror é basicamente psicológico.

Confesso que em alguns momentos, durante minha jogatina, o botão de interação dava uma pequena “engasgada”, mas nada que afetasse a fluidez do game. The Town of Light é um jogo bem leve. Ele pode ser instalado em computadores com configuração simples e que não possuem placa de vídeo. Porém, nesses casos, talvez só funcione com a resolução mínima. 

Enfermaria, The Town of Light  – 2016

A personagem principal possui um inventário básico, composto pelas páginas do diário, uma ficha médica e experiência. Esse inventário nos ajudará a compreender a história de modo geral, à medida que avançamos nos cenários. O game não possui mapa, mas caso esteja perdido, você poderá interagir com Renée e ela dará um “norte” de onde você deve ir. Mas nada muito explícito, você terá que explorar bastante para avançar. 

Cenários fiéis e gráficos animadores

Devo parabenizar a equipe de design de The Town of Light por conseguir reproduzir tão fielmente o sanatório que serviu de inspiração para a construção mostrada no jogo. Eles se empenharam bastante em garantir que você estivesse totalmente imerso no verdadeiro Hospital de Volterra. Os cenários são bem feitos, com destaque até nos detalhes das paredes ou de vidros quebrados. É um trabalho primoroso.

Parquinho nos arredores de Volterra

O único ponto negativo são os gráficos envolvendo os personagens. De fato, eles quase não aparecem, pois o jogo é em primeira pessoa. Você poderá vê-los através de fotos e flashbacks em cores cinzas. Para um jogo de 2016, eu esperava mais em relação ao design dos personagens, mas imagino que a maior parte dos gastos da produção tenha ido para ambientação e cenário. 

Os flashbacks jogáveis de Renée são bastante distorcidos e apresentados em preto e branco

A história é composta por flashbacks jogáveis (em preto e branco) e cutscenes cartoonizadas, que suavizam um pouco o conteúdo perturbador. Devo alertar que o jogo é muito forte, possui uma temática pesada e pode afetar ligeiramente o jogador em alguns pontos. Caso você tenha achado Outlast (2013) pesado, talvez não tenha muito estômago para The Town of Light. Não por ter gore, mas pela situação e os fatos narrados e vividos pela personagem. Em certo ponto, você perceberá que Renée representa todos os pacientes que passaram pelo Volterra real. E isso é realmente o mais perturbador.

Cutscenes cartoonizadas – Renée forçada a usar uma camisa de força

Conclusão: todos os monstros são humanos

Caso você esteja procurando um jogo de jumpscare e corridas insanas, com muita adrenalina, talvez The Town of Light  não te cative. No entanto, a história é rica em detalhes, o ambiente é bastante imersivo e deixa o jogador apreensivo e ansioso. Além de despertar sentimentos de indignação, frustração e raiva. 

Talvez seja um dos jogos mais tensos que joguei. Ele me afetou de uma forma indescritível. Esqueça os clichês de sanatório assombrado ou de espíritos vingativos. The Town of Light conta uma verdade dura de ser digerida: todos os monstros são humanos. Através de um contexto histórico, o game nos mostra como os pacientes reais foram marginalizados em tantos hospitais no decorrer da história da humanidade, e como nós contribuímos para isso. É uma obra que conta com uma narrativa magistral,entregando uma experiência única.

Revisão: Luiz Gonzaga

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