Análise: Dishonored 2 (PS4) – Coroa de penas pretas

“É sempre bom ver um rosto familiar”.

Dishonored 2 é um game de gênero ação/aventura com elementos stealth, desenvolvido pela Arkane Studios e publicado pela Bethesda Softworks, com lançamento mundial  em novembro de 2016. O título é  uma sequência direta de Dishonored (2012), e encontra-se disponível para Microsoft Windows, PlayStation 4 e Xbox One.

Dishonored 2 foi premiado na categoria “melhor jogo de gênero ação/aventura” no The Game Award. Além de pacotes de itens adicionais, o título também recebeu, em 2017, a DLC standalone intitulada “Dishonored: Death of the Outsider”, que trouxe uma história independente, desenvolvidas à partir de determinados acontecimentos do game base. 

Atenção! A análise possui spoilers de Dishonored (2012).

Homens de pedra: duas imagens habitando o vazio

Após mais de uma década em relação aos acontecimentos do game anterior, Emily Kaldwin parece finalmente ter se estabelecido como a digna e benevolente sucessora do trono de Dunwall. Fazendo jus ao legado de Jessamine, cuja morte se tornou uma lembrança corriqueira, imortalizada através de uma homenagem anual, celebrada no reino que uma vez a levou à beira do abismo, de onde despencou Corvo Attano, agora revelado como pai de Emily. 

Corvo, o protetor real e a mão que mantém a balança da justiça estável, viu-se obrigado a preparar sua filha para um possível atentado que pudesse vir a ocorrer em um futuro distante, conforme seus deveres como política e líder cresciam. Anos após o treinamento de Emily, a bússola moral insiste em se desorientar mais uma vez. Durante o anual dia de luto por Jessamine, uma ameaça já conhecida da saga infiltra-se na fortaleza de Kaldwin e implementa um golpe de estado, meticulosamente construído com peças ignoradas pela corte com o passar do tempo. Agora, a ordem que rege todas as coisas precisa ser reconstruída novamente. Mas a que preço?

A saga Dishonored, agora maior e melhor, traz uma campanha linear, com moderada duração e mapas semiabertos, divididos em capítulos. Objetivos secundários se expandiram, em forma de quebras-cabeça, colecionáveis e pequenos serviços, que afetam  ou não nossas missões principais. 

É possível assumir a pele de Corvo ou a de Emily, o que gerará experiências levemente diferentes narrativamente, limitando suas mudanças à meras trocas de diálogos e/ou cutscenes. Múltiplos finais podem ser alcançados, dependendo das pequenas e grandes escolhas que fazemos e, claro, de quanto sangue derramamos. 

O coração de Jessamine: novas vozes emergem do abismo

Mais brutal e sangrento, Dishonored 2 nos apresenta uma variedade ainda maior de gameplay, com leques distintos de poderes para cada personagem (Corvo ou Emily), o que possibilita novas combinações de ataques, estratégias e alimenta o fator replay. Com mais coisas para se fazer, o game inova com colecionáveis adicionais (áudios, documentos, runas e amuletos de osso de vários tipos, etc…) e novas atividades, além de maiores interações com NPCs, e segredos. Muitos e muitos segredos.

Existem novas funcionalidades e novos inimigos foram introduzidos, que vão de infectados pela nova praga à soldados mecânicos gigantes. Diversas estratégias podem ser exploradas, desde matar tudo em seu caminho à atravessar o mapa sem ser notado, e tudo influenciará não apenas no desenrolar de nossa jornada, mas também no mundo ao nosso redor, que pode ser hostil ou amigável, conforme construímos nossa moral.

Podemos aprimorar quase tudo que portamos, desde equipamentos à nossas habilidades sobrenaturais. Apesar dos inimigos bem variados, sua inteligência artificial (I.A) não impressiona, mas atende os requisitos básicos.

Existem diversos diálogos e cutscenes opcionais, ativados ao executarmos ações específicas, o que estimula ainda mais a exploração no game. Com gráficos melhorados e trilha sonora impecável, Dishonored 2 é uma maravilha técnica, que parece ter envelhecido muito bem com o passar dos anos. Vermelho como vinho, e grosso como sua contraparte. Somando à todas essas melhorias, ainda contamos com novos modos, como o New Game +, que permite começar uma nova campanha, dessa vez, portando os poderes de ambas personagens, e podemos ainda recusar a marca do Estranho, resultando em uma jogatina sem poderes. 

Veredito: elitista

Dishonored 2, em muitos aspectos, é apenas uma versão melhorada de seu título anterior. Muitos elementos foram reaproveitados, e polidos. Diversas mecânicas, são idênticas. Portanto, caro leitor, se você anseia uma experiência completamente diferente, que arrisca pensar fora da caixa, à você ofereço meus pêsames. Porém, grandes inovações, nem sempre são necessárias, Dishonored 2 opta por fazer o que é seguro: manter os elementos do título anterior que já funcionavam muito bem, corrigir suas falhas, e aplicar melhorias. 

A sequência da jornada de Corvo, é maior, melhor, mais recursiva e incrivelmente superior ao seu predecessor. Porém, erros ainda existem, mesmo que pequenos. Apesar dos protagonistas, agora falantes, e de melhores expressões faciais, em muitos momentos nota-se uma grande falta de emoção por parte das personagens, além dos eventuais bugs e travamentos. Mas ainda assim, apesar dos pequenos deslizes, o título acerta em cheio ao aproveitar o conteúdo positivo do primeiro game, e instalar de maneira cuidadosa, uma quantidade generosa de novidades. 

Portanto, se você, caro leitor, não gostou de Dishonored (2012), dificilmente irá aproveitar a experiência de Corvo e Emily contra uma nova ameaça. Agora, se você se divertiu ao experimentar a vida em Dunwall uma primeira vez, novas ilhas lhe aguardam. E toda grande aventura requer um bom número de escolhas difíceis. E queiramos ou não, sempre há alguém nos assistindo, ansiosos para a balança pesar novamente.

Uma cópia digital foi concedida pela Bethesda Softworks para realização desta análise.

Revisão: Arthur Döhler

Arthur Döhler

Graduando em letras português/Inglês. Tradutor (EN - PT), revisor, escritor, redator, jornalista, pesquisador e professor de idiomas e suas literaturas. Possui formação complementar em Harvard. Autor do livro "Manual do Ilustrador de Sonhos". Descobriu o inglês através dos games. Através do inglês, a leitura. Pela leitura, formou a escrita, e a escrita o trouxe de volta aos games.

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