Análise: Dishonored [Definitive Edition] (PS4) – Sangue na Lâmina de Dunwall

“Meu querido Corvo, veja o que fizeram com você…”

Dishonored é um game de gênero ação e aventura com elementos stealth, foi desenvolvido pela Arkane Studios, e posteriormente publicado pela Bethesda Softworks. Originalmente, havia sido lançado para as plataformas Microsoft Windows, PlayStation 3 e Xbox 360 em outubro de 2012. Uma versão remasterizada foi lançada, anos depois, para PlayStation 4 e Xbox One, em agosto de 2015. 

Esta remasterização de 2015, intitulada “Dishonored: Definitive Edition” trazia, além de melhorias gráficas e técnicas, todo conteúdo adicional publicado para o jogo, que consiste em pacotes de itens extras e três DLCs, que acrescentam mais conteúdo à história do jogo. São elas Dunwall City Trials, The Knife of Dunwall e The Brigmore Witches.          

O título também arrebatou diversos prêmios, entre eles: BAFTA Game Awards, na categoria “Melhor Jogo” (2013) e o prêmio VGX, na categoria “Melhor jogo de ação e aventura”.

Esta é uma análise livre de spoilers, limitados ao prólogo do enredo. 

Edgar à maquiavel: Corvos e seus presságios 

Dishonored é uma pérola narrativa, perfeitamente polida e lapidada em toda sua composição. O enredo, aparentemente linear, primeiramente nos introduz à um universo fictício que, por enquanto, volta-se apenas para a cidade industrial de Dunwall. Trata-se de uma metrópole situada no séc XIX, que desenvolveu-se de maneira extraordinária não apenas tecnológica, como também economicamente, devido à descoberta de uma nova fonte de energia, advinda do óleo de baleia. Constituindo-se, então, como uma capital portuária, Dunwall situa-se em uma nação governada pela imperatriz Jessamine Kaldwin, que rege uma realidade dividida entre sua composição medieval, com espadas e a guarda real, mas também com máquinas futurísticas que infestam as ruas até o céu. 

Quando uma praga atinge a cidade, ratos tornam-se os principais vetores, infectando os miseráveis da população pobre e isolando cada vez mais a elite da plebe. Nossa jornada se inicia com a chegada de Corvo Attano, o protetor real, responsável por guardar a vida tanto de Jessamine quanto de sua filha, a princesa Emily. Porém, ao encontrar-se com a imperatriz para relatar sua missão em busca de uma possível cura, Corvo e Kaldwin são surpreendidos por um grupo de assassinos, que desaparecem como chegaram, através de magia negra, deixando para trás apenas o protetor real, que levará a culpa pelo assasinato da imperatriz, e do sequestro da princesa Emily. 

Meses se passam, e um novo governo, agora totalitário e opressor, é implementado, sob as mãos de ferro do Lorde Regente, que despreza a pobreza e tudo que a cerca. Corvo, aguardando em sua cela escura a pena de morte por um crime que não cometeu, recebe em uma noite a visita da entidade conhecida como “O Estranho”, um Deus espectador que abençoa com poderes sobrenaturais os poucos indivíduos para os quais aparece, e se diverte assistindo as escolhas morais que cada um há de fazer com a nova força que possuem. 

Agora em liberdade, o ex-protetor real deve reunir-se com a resistência contra o novo regime ditatorial, e com a marca do Estranho, alimentar sua sede de vingança. 

A balança e a espada: As muitas ruas

Dishonored possui extrema violência gráfica, física realista, gráficos ligeiramente ultrapassados e uma trilha sonora que, embora quase ausente, é impecável. No game, estamos sob a pele de Corvo, em primeira pessoa. E o jogo nos permite realizar uma variedade de ações, como completar missões secundárias, coletar itens, realizar melhorias em nossos equipamentos e poderes (ambos são bem variados), além de interagir com os mais diversos objetos e personagens. 

O game possui um sistema de moralidade, que se desenvolve em diferentes estratégias de gameplay. Apesar de o jogo seguir uma rota linear, é possível completar as missões de maneiras incrivelmente variadas. Em um mesmo capítulo, podemos, por exemplo, cumprir nosso objetivo sem tirar uma vida sequer ou quem dirá ser visto. Assim como também é possível instaurar o caos, destruindo tudo e todos em nosso caminho. Nossos objetivos então, podem ser alcançados e cumpridos de diferentes maneiras, que sempre irão resultar em escolhas morais como: salvar alguém ou não, derramar sangue ou não. 

O peso destas escolhas, será refletido ao fim de nossa jornada, com duas possíveis conclusões diferentes. O mundo ao nosso redor, que por sinal é bem vasto, também será um reflexo de nossas escolhas, que afetarão não apenas a atmosfera e cenário, como também a reação das pessoas à nossa presença. Nós moldamos o mundo ao nosso redor, e ele pode ser caótico, ou não. 

Corvo Attano possui um grande arsenal, que inclui: pistolas, bestas, granadas, minas, entre outros. Nossos poderes alternam-se entre habilidades como: congelar o tempo, ver através das paredes, se teletransportar, invocar ratos, possuir corpos, e mais. Tanto nosso equipamento quanto poderes e habilidades podem ser aperfeiçoados e ganhar novas funções, através de runas (pontos de habilidade) ou outros meios. Ainda possuímos um coração, que rastreia itens especiais e nos revela segredos da cidade, e das pessoas que a habitam. 

Com uma infinidade de recursos, nossa possibilidade de lidar com os inimigos é limitada apenas pela nossa criatividade. Ou crueldade. 

Veredito: Caótico 

Dishonored é de longe, um dos melhores títulos já produzidos pela humanidade. Subestimado por alguns e desconhecido por muitos, a obra da Arkane Studios é de longe, uma das melhores surpresas de 2012, que de fato merece o triplo do reconhecimento que teve, e ainda tem. Com um jogo relativamente curto e simples, a Bethesda conquistou nossos corações e almas, ao trazer um mundo belo e horrível pelos mesmos motivos, que instigam no jogador debates morais acerca de nossas escolhas. E certamente, ninguém saíra desta experiência intacto. 

Suas qualidades ofuscam seus defeitos que, no geral, se resumem à ocasionais bugs e atrasos técnicos, além de uma relativa falta de envolvimento emocional por parte das personagens. É importante ressaltar que, por mais que uma remasterização seja sempre bem-vinda, poucas inovações foram notadas em relação à versão original.

Porém, mesmo com estes pontos negativos, Dishonored é um prato cheio para os amantes do gênero stealth. Trata-se de uma obra maravilhosa, repleta de segredos, feita para ser jogada diversas vezes de diferentes maneiras. 

A história de Corvo nos revela que em algumas situações, talvez a espada pese mais do que a balança, mas não há como empunhá-la sem se cortar. E a jornada de Corvo Attano, está apenas à altura de sua sequência, Dishonored 2.

Uma cópia digital foi concedida pela Bethesda Softworks para realização desta análise.

Revisão: Arthur Döhler

Arthur Döhler

Graduando em letras português/Inglês. Tradutor (EN - PT), revisor, escritor, redator, jornalista, pesquisador e professor de idiomas e suas literaturas. Possui formação complementar em Harvard. Autor do livro "Manual do Ilustrador de Sonhos". Descobriu o inglês através dos games. Através do inglês, a leitura. Pela leitura, formou a escrita, e a escrita o trouxe de volta aos games.

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